
(continuação)
Então a avó contou, para divertimento do João e da Maria que a ouviam com toda a atenção:
- Quando a tua mãe era mais ou menos da tua idade, João, tinha uns seis ou sete anos, um dia fomos, como hoje, fazer compras, mas foi de roupa. Lá andámos as duas, entrámos e saímos, experimentámos lojas inteiras e comprámos umas coisas engraçadas. O avô, que não tinha paciência para aquelas sessões de compras de raparigas, tinha ficado em casa a descansar. Já tínhamos comprado quase tudo o que precisávamos – e algumas coisas de que não precisávamos, para ser honesta – quando entrámos numa última loja. A tua mãe já estava um bocado farta e começava a fazer disparates, tipo sentar-se nas prateleiras ou tirar muitas roupas dos cabides e deixar logo de lado. De repente viu uma t-shirt lindíssima da betty boop, uma boneca de desenhos animados antigos.
- Oh, eu sei! – disse a Maria - comprei em Espanha um porta-chaves dela, é muito gira!
- Pois é, - continuou a avó - e a t-shirt entusiasmou muito a minha filha. Eu nessa altura estava a provar uma blusa e ela ficou cá fora. Então ficou com a t-shirt da betty boop na mão para me mostrar quando eu saísse e continuou a explorar a loja. Eu saí, decidi não comprar nada, agradeci à empregada e disse: “Sara, vamos embora”. Ela veio comigo e quando íamos a sair a porta começou o alarme a apitar. Veio a empregada, a olhar para nós com um ar muito desconfiado, eu sem perceber nada e a empregada, com um ar triunfante, tirou das mãos da Sara a t-shirt que ela tinha misturado com os sacos de compras que trazia na mão. – Aqui a Avó virou-se para a filha - Eu acho que fizeste sem querer, era realmente uma confusão de sacos, foi, não foi?
- Oh mãe, claro que foi, acha que eu ia roubar uma t-shirt? – respondeu, indignada, a mãe do João.
- Bom, mas a empregada não acreditou, percebem? Começou a acusar-me de roubar a t-shirt, de usar a minha filha para fazer isso. Eu ainda disse que ela estava a ser parva, que se via logo que a criança estava distraída, mas depois desisti porque a mulher não ouvia nada e só repetia que eu estava a roubar. Chamou o segurança, apareceu também um polícia e ela insistiu que tínhamos de ir para a esquadra. Felizmente o segurança e o polícia eram mais sensatos e acabámos no escritório dos seguranças. Eles queriam que eu pagasse a t-shirt mas eu recusei, não queria dar dinheiro nenhum a ganhar àquela maluca. Então disseram que para se resolver aquilo de uma vez por todas o melhor era chamar o meu marido, ele responsabilizava-se por nós e deixavam-nos ir. Telefonei para o avô e pedi-lhe que viesse ter connosco. Ele veio, muito intrigado, porque eu não lhe quis contar a razão pelo telefone. Achei que ele não ia perceber nada. Claro que quando chegou e ouviu a história nem queria acreditar – como tu agora, minha querida. Mas teve de se render às evidências, aceitou ele pagar a t-shirt e saímos dali, eu furiosa por ele ter comprado a t-shirt, tu, Sara, toda contente com a t-shirt mas muito atrapalhada, com medo que nos levassem para a prisão e o teu pai a repetir, estupefacto: “Mas vocês vêm às compras e acabam presas!!? Mas o que diabo é que aconteceu?”
Nesta altura o João e a Maria riam-se imenso, a imaginarem a mãe do João, aquela senhora actualmente com um ar tão sensato, a ser levada pelo polícia do centro comercial, com toda a gente a olhar para ela e ela com vontade de se sumir pelo chão abaixo.
- Olhem que não, eu não ia assim tão envergonhada, até me sentia um bocado heroína, com a atenção daquela gente toda. – disse a mãe que, ao ouvir a história, se tinha lembrado da cena.
- Bom, pelo menos hoje estivemos do lado dos polícias e não dos ladrões, como naquela altura. – comentou a Avó.
- O que eu gostava mesmo era que nos mantivéssemos afastados tanto dos polícias como dos ladrões, pode ser? – disse a mãe do João. E para encerrar a conversa, que não lhe estava a agradar muito: - Vá, venham ajudar-me a arrumar as compras que depois vamos ver um filme todos juntos.
- Mas queremos um filme de aventuras! – disseram ao mesmo tempo o João e a Maria.
E assim foi.
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