Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Os Amigos do Esquerdo no Parque de Campismo

Esta história saiu por uns tempos, mas está de volta!

Vivam as Férias do Verão.
Junho é um mês espectacular: acabam as aulas, os dias são compridos, no ATL podem-se fazer intermináveis jogos de futebol, corta-matos, banhos de mangueira, guerras de balões de água e, quando a acção acaba, por efeito do cansaço ou do excesso de calor, pode-se ficar molemente à sombra, a jogar uma qualquer consola ou simplesmente a conversar. Depois vem Julho, e as colónias, com as manhãs de praia e as tardes de passeio ou, outra vez, futebol, volei, campeonatos disto e daquilo, que o desporto nunca é demais! Resumindo: o Verão nunca devia acabar, bem se podia passar Setembro para Dezembro, mas obviamente sem adiar o Natal!!!
Numa tarde de Julho, o André, o primo do Pedro, foi buscá-lo ao ATL e acabou por ficar um bom bocado a jogar futebol com eles. Entretanto chegou a avó do João, para ir buscar o João e a Maria e foram todos comer um gelado, numa esplanada perto de casa. Foi aí que o André começou a falar das férias que ia fazer com os amigos. Tinham o projecto de ir acampar, em grupo. Passavam primeiro pela Trofa, a terra de um dos seus amigos. Aí visitavam o Castro de Alvarelhos que o amigo, estudante de arqueologia, dizia ser um monumento interessantíssimo, construído na Idade do Bronze mas também com vestígios romanos e medievais. Ficavam uns dias a conhecer a Trofa no Verão e depois seguiam para um festival no Norte: música, calor e rio era um dos melhores programas em que podiam pensar!
Quando ele falou de campismo os mais novos interessaram-se imenso: nunca tinham acampado e achavam fantástica a ideia de martelar as espias da tenda, dormir dentro dum saco cama e andar sempre ao ar livre. A Maria acrescentava ainda o desejo
de jogar às cartas à noite, dentro da tenda, à luz de uma lanterna. Lera recentemente um livro onde uma cena assim era descrita e ficara cheia de vontade de experimentar.
A Avó observou o entusiasmo deles e ficou a matutar. Quando era mais nova ela tinha acampado e lembrava-se como era divertido. Na verdade até as noites de chuva ela recordava com uma certa nostalgia, embora na altura em que elas tinham acontecido não tivesse achado muita graça: o vento e a chuva, quando se está numa tenda, podem ser bastante desconfortáveis e até assustadores.
Podemos então dizer que o André foi responsável pelo que aconteceu naquele Verão. Porque a Avó falou com os pais do João e da Maria, sobre esta conversa e as suas memórias felizes. O Pedro azucrinou a cabeça aos pais, foi à Internet pesquisar parques de campismo (apareceram-lhe 677.000 resultados), prometeu que tomava conta das suas coisas e que nunca refilaria na hora de tomar banho. Finalmente, os pais pensaram que podiam ser umas férias divertidas, boas para variar da rotina dos hotéis ou dos apartamentos junto da praia. Organizou-se um grupo de campistas de tal forma animado que até o André teve pena de não poder participar, uma vez que já estava comprometido com os amigos da idade dele.
Como todas as famílias tinham planos anteriores, marcaram um período para dedicar ao campismo e combinaram encontrar-se em Itália, num parque de campismo à beira do Lago de Garda, num dia do final de Julho.
A ideia do Lago de Garda foi da mãe da Maria, uma grande apreciadora de viagens que gostava de destinos originais. Anos antes, com uns amigos muito queridos, ela passara um tempo em Veneza e tinha tido a oportunidade de dar um passeio até à
região dos lagos à volta de Brescia. Desde então, aquela paisagem impressionante ficara-lhe na memória e sempre pensara que queria lá voltar, para ter a oportunidade de
a conhecer melhor. Com o seu entusiasmo conseguiu contagiar os outros e o lago de Garda, o maior dos lagos, foi o destino escolhido.
O grupo era constituído pela família do Pedro, a família da Maria e a do João. Os pais da Carolina disseram que talvez conseguissem também ir alguns dias, mas não deram a certeza, por causa de outros projectos que já tinham. Cada família organizou a viagem à sua maneira, mas o objectivo era estar no Lago a 25 de Julho.

Tendas e pizzas!
Foi muito divertido. Primeiro chegou o Pedro, com os pais. Ele queria escolher o melhor lugar para o grupo. Explicou logo na recepção que iam chegar uns amigos e pediu instalação onde coubessem as tendas dos outros. O senhor achou-lhe graça e deu-lhe um lugar óptimo, que comunicava directamente com a praia, quer dizer, com o sítio onde se tomava banho no lago e ficava perto do campo de jogos.
No fim do dia já tinham chegado todos e as tendas estavam instaladas. Juntaram as mesas, foram buscar umas pizzas a uma pizzaria ali perto e saborearam-nas com prazer.
- Mmm! – exclamou o João – As pizzas italianas são uma delícia!
- Também acho. – respondeu a Maria – É porque eles é que as inventaram. Nos outros países fazem cópias… Pizzas verdadeiras são as italianas!
- Eu não acho assim muito diferentes das portuguesas. - comentou o Pedro – Mas quando chegar à escola vou dizer a toda a gente que são espectaculares, melhores do que todas!
Depois de jantar, como era o sonho da Maria, jogaram às cartas à volta da mesa. Não foi dentro da tenda, como ela imaginara, porque a noite estava quente e estava-se melhor cá fora, mas foi muito divertido e só pararam quando os adultos se impuseram e não aceitaram mais adiamentos da hora de dormir.
Foram lavar os dentes ao balneário, o mais silenciosamente que conseguiram, como é da regras do campismo e cada um se recolheu à sua tenda, adormecendo rapidamente.
De manhã, o sol ainda estava baixinho, lá para os lados do lago quando o Pedro meteu a cabeça de fora da sua tenda, para ver se alguém já estava levantado. Viu a mãe da Maria a deixar em cima da mesa uma caixa com pão fresco que tinha ido buscar à padaria do campo, queijo e iogurtes para o pequeno-almoço.
-Vou dar um passeio à beira do lago, - disse ela. – Estão aqui coisas para comer, se quiseres serve-te, Pedro.
O Pedro agarrou num pão, pôs-lhe uma fatia de queijo dentro e pediu:
- Posso ir consigo? Apetece-me imenso ver o lago e o que existe ali à volta, ontem só consegui dar uma vista de olhos muito rápida.
A mãe da Maria aceitou, pediu-lhe só para deixar um bilhete aos pais, para eles saberem onde ele estava.
Seguiam já em direcção ao portão do parque que dava para a praia do lago, quando ouviram passos em corrida atrás deles. Eram a Maria e o João que os tinham visto sair e não queriam perder aquele passeio matinal.
Um passeio à beira do Lago de Garda
À beira do lago estava-se realmente muito bem. A água do lago estava lisa, com uma cor azul acinzentada clarinha. Ao longe viam-se as montanhas da margem norte meio escondidas pela névoa matinal e no lado sul, ainda baixo, o sol criava um espaço mais brilhante que interrompia o nevoeiro. Quase não havia ninguém. No pontão, de onde se podia saltar ou descer para a água, estavam duas pessoas sentadas, em posições de ioga, voltadas para o lago com um ar muito concentrado. Passou um ciclista por eles que disse qualquer coisa em italiano: calcularam que fosse bom dia.
Influenciados por aquele ambiente extraordinariamente tranquilo, o Pedro, o João e a Maria começaram a falar uns com os outros em voz baixa. A mãe da Maria reparou e riu-se:
- Faz-vos bem esta paisagem, sim senhor! Ficam mais calmos… Mas é assim mesmo, as pessoas vêm aqui para sentir a manhã e nós não queremos perturbar isso.
Seguiram um bocado pelo caminho à beira do lago, acompanhando a mãe da Maria no seu passeio. Mas daí a pouco já chegava de calma para eles e decidiram voltar ao parque, acabar o pequeno-almoço, vestir os fatos de banho e descobrir um sítio onde se pudesse jogar à bola.
Uma Conversa Estranha na Calma da Manhã
Regressaram pois os três, entrando pelo portão do parque. Já havia mais gente acordada, mas o parque ainda estava bastante silencioso. Ao passarem ao lado de uma tenda pequena, ouviram vozes lá dentro e perceberam que falavam português. Pararam, curiosos, pensando que podiam encontrar mais uns companheiros de brincadeira. Sem querer escutaram uma conversa estranha:
- Mas não achas que aquilo fica guardado toda a noite? – perguntava alguém.
- Acreditas que neste sossego alguém consegue ficar acordado toda a noite?
- Entramos em acção esta noite?
- Cala-te, não sabes que nas tendas se ouve tudo lá para fora?
- Deixa, estamos em Itália, ninguém nos entende!
Os três miúdos que tinham parado sorridentes estavam muito espantados e, quando ouviram esta última frase, afastaram-se rapidamente, o mais silenciosamente que conseguiram.
Meio assustados, meio excitados, o João, o Pedro e a Maria procuraram um recanto tranquilo e vazio para conversarem sobre o que tinham acabado de ouvir.
- Meu Deus, vocês ouviram? – a pergunta da Maria era um bocado escusada, porque era óbvio que todos tinham ouvido, mas os outros desculparam-na porque compreendiam que ela se sentia, como eles, muito, muito intrigada.
- Eles estão a planear qualquer coisa.
- E é para esta noite!
- Mas o quê? – perguntou o João, acrescentando logo de seguida, com bastante lógica – Boa coisa não é, senão não estavam preocupados que alguém os ouvisse!
- Eles falaram de um sítio que fica guardado toda a noite. – disse a Maria – Ora que eu saiba, num parque de campismo o único sítio que fica guardado toda a noite é a recepção.
- Pois é - concordaram o Pedro e o João – e num parque como este também é um sítio sossegado, onde deve ser difícil o recepcionista da noite ficar acordado. Ele deve ter algum sofá ou cama onde se estende e dorme um bocadinho, não acham?
- Mas não é só o recepcionista. - afirmou a Maria – Ontem, quando fomos para dentro da tenda andava um homem com uma lanterna pelo parque, vocês não repararam?
- E se fossemos falar com ele? – sugeriu o Pedro – Podíamos contar o que ouvimos e dizer-lhe para tomar atenção à recepção esta noite.
- Ele é italiano, como é que nos entendemos com ele? Além disso, mesmo que conseguíssemos explicar-lhe, achas que ia acreditar em nós? Ainda passávamos por malucos ou pior, miúdos parvos. – era o João a falar.
Na verdade o João, o rapaz que queria ser detective, estava cheio de vontade de tentar resolver o mistério por si próprio. Só tinha pena de não ter trazido a lupa, pois não tinha imaginado precisar de fazer investigações. Pensara que nas férias haveria apenas mergulhos e jogos! Mas agora estava ali um mistério e eles tinham de fazer alguma coisa. Foi isso que propôs aos amigos:
- Eu acho que nós é que vamos ter de fazer alguma coisa. – disse – Acho que tenho um plano, oiçam.

(Continua)

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