Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Os Amigos do Esquerdo no Parque de Campismo


(II Parte)

A Maria e o Pedro olharam para ele entre o assustado e o surpreendido. A Maria teve pena que não estivesse ali o Miguel que era um bocadinho mais velho e tinha sempre umas ideias mais sensatas para temperar os entusiasmos do João. Assim tinha de ser ela a fazer esse papel! Dispôs-se pois a ouvir o plano do João com uns ouvidos sensatos e não aceitar que ele os metesse em aventuras que os fizessem correr perigo.
Juntaram-se mais e, na voz secreta de expor planos, o João começou:
- Eles disseram que iam entrar em acção esta noite. Nós somos pequenos, por isso vamos fazer o seguinte… - aqui baixou a voz de tal maneira que seria impossível ouvi-lo mesmo a um passo de distância.
A Maria achou o plano suficientemente seguro para poderem pô-lo em prática, embora fosse um bocadinho assustador, por envolver passeios nocturnos. Puseram-se os três de acordo, lamentaram que o resto dos companheiros de aventuras não estivessem ali, porque ia ser muito mais divertido e depois foram-se preparar para experimentar a água do lago. O sol já tinha subido, o parque animara imenso e vinham dos lados do lago barulhos convidativos: gritinhos de prazer do barco que tinha um escorrega para a água, o chiar da cama elástica gigante onde saltavam grupos de miúdos, campainhas de bicicletas dos ciclistas que passeavam pela marginal (em italiano passeggiata, uma palavra que o Pedro achou fantástica).

O Plano do João em Acção

À medida que o dia acabava os três amigos iam ficando um bocadinho nervosos e por isso com dificuldade em parar. Mas lá conseguiram fazer tudo o que era preciso: tomar banho, arrumar as suas coisas para as tendas ficarem em ordem e ajudar a preparar o jantar pondo a mesa, como se tinham comprometido. Os pais ficaram bastante surpreendidos quando não quiseram ficar a jogar às cartas cá fora e preferiram recolher às tendas assim que acabaram de lavar e arrumar a loiça do jantar.
A Maria tinha uma tenda só para ela e pediram para dormir todos juntos, o que foi autorizado. Primeiro entretiveram-se um bocado a jogar à bisca, depois ficaram sentados, calados, à espera que se fizesse silêncio no parque. Não se queriam deitar porque tinham medo de adormecer e lá ia o plano por água abaixo.
Tarde na noite, ouviram barulho de ressonar vindo de uma das tendas dos adultos. Para além desse ruído o parque já estava muito silencioso e também escuro, só com as luzes de presença. Espreitaram para fora da tenda, a tentar localizar o guarda da lanterna, mas não estava à vista. Então, o mais levemente que conseguiram, saíram da tenda. Agarraram num rolo de papel higiénico e numa toalha, assim se fossem surpreendidos diriam que iam à casa de banho. E dirigiram-se para a recepção.
Aparentemente ali estava tudo calmo. Como eram pequenos, conseguiram esconder-se num recanto, entre a parede e a sebe que limitava a piscina, como o João previra. Instalados, perfeitamente invisíveis, mas com vista para a entrada da recepção, esperaram. Pouco tempo depois viram chegar furtivamente duas figuras todas vestidas de preto. Um deles tinha na mão qualquer coisa que parecia uma chave de mudar pneus. Dirigiram-se para a janela lateral da recepção, pararam a fazer qualquer coisa com a ferramenta, a janela abriu-se ligeiramente e eles içaram-se lá para dentro. Tudo isto num enorme silêncio, até que chegou até eles um grito abafado e um ruído seco.
Imediatamente puseram em acção a segunda parte do plano do João.

Um Barulho Infernal Interrompeu o Silêncio da Noite

Eram três da manhã, no Parque de Campismo do Lago de Garda e veio um barulho estridente do lado da entrada. O guarda da lanterna que andava a vigiar à beira do campo de jogos, correu para o sítio donde lhe pareceu que vinha o barulho. Os campistas instalados mais perto da entrada, mesmo os de sono mais pesado, acordaram, assustados, os bebés que dormiam também acordaram e começaram a chorar. Os mais atrevidos saíram das tendas para ver o que se estava a passar.
Quando o guarda estava a chegar perto do sítio de onde vinha o barulho, viu saírem a correr, de dentro do edifício da recepção, dois homens vestidos de preto, com um saco na mão. Carregou no botão de um aparelho que trazia com ele o qual, mais tarde, se percebeu que era para chamar a polícia e correu atrás dos ladrões. Alguns campistas, já mais acordados, foram ajudá-lo e em pouco tempo os dois homens tinham sido agarrados e dominados. O saco que traziam na mão tinha dinheiro, um computador portátil e o telemóvel do recepcionista. Claro que o peso dificultara-lhes a fuga, por isso tinham sido tão facilmente apanhados.
Entretanto a barulheira estridente continuava a ouvir-se até que o pai da Maria percebeu que eram os alarmes dos carros deles que se tinham activado. Desligou rapidamente o dele e foi chamar o pai do Pedro e o do João para fazerem o mesmo. Apesar de ainda haver muita confusão e barulho de conversas, sem o ruído alto e contínuo dos alarmes dos carros, finalmente começou a ser possível as pessoas entenderem-se. A polícia chegou e tomou conta das ocorrências, pedindo a todos que se acalmassem e recolhessem às tendas porque já não havia perigo.
Aos pais do Pedro, do João e da Maria começou a parecer estranho que eles fossem os únicos a não sair da tenda e foram espreitar lá para dentro.
- Têm um sono de pedra os nossos filhos, - comentou a mãe do João, enquanto abria o fecho da tenda e se baixava para olhar lá para dentro.
Mas ia desmaiando quando percebeu que não estava lá ninguém. Os outros pais viram-na entrar lá para dentro e começar a remexer nos sacos cama vazios. Ia começar uma preocupação sem fim quando, felizmente, viram chegar os três miúdos, vindos do centro da confusão, com um ar estafado mas satisfeito.
- Onde é que vocês estavam? – perguntaram os pais, em coro.
- Fomos ver o que se passava. Apanharam uns ladrões! – respondeu a Maria, por todos. Não era verdade, mas também não era completamente mentira e àquela hora não lhe apetecia nada ter de estar com explicações. Estava cheia de sono.
Foram todos aconchegar-se nos seus sacos cama, mas é claro que lhes custou muito a adormecer, porque estavam excitados e ainda um bocado assustados com o próprio atrevimento.
(Continua)

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